Digite aqui qualquer palavra que faça surgir alguma poesia

Nesse dia triste nasce uma poesia

Nesse dia triste nasce uma poesia
Triste...
No entanto, bonita...
Tinha os olhos da mãe
Que de tão claros
Doía,
Tinhas as orelhas do pai
Que de tão abana
Não ouvia,
Tinha perna,
Simetria,
Anedota, arritmia,
Era cardíaca, de fato,
Problemas no coração,
Mas era uma poesia
E com o passar da vida
Passaria na despercepção

De vez em quando,
Ela chorava,
Não lágrimas
Nem canto,
Uma coisa no corpo do texto
Que despencava
Quase como uma cascata
fora do contexto
E eu odiava
Odiava a esmo
Mas sempre lembrava
Que esse era seu jeito meigo
E um dia,
Talvez o quando não possa lembrar
Choveu do céu
E a poesia
Que não podia se molhar
Perdeu a cor de seu papel
Fiquei triste
E amaldiçoei o dia
E nem percebi
Que da tristeza da vida
Nasceu-me outra poesia

Essa, tão diferente de sua irmã
Com nada mais parecia
Tinha cara de vilã
E corpo cheio de estria
Linhas tortas
Que talvez estivessem certas
Um verbo sem lógica
Numa oração desconexa
Sei lá,
Pensei que fosse obra do destino
E acreditar
Era tudo o que fazia sentido
Então, dei fé
E jurei esperança
Nasceu um pé
E uma circunstância
De breve revés
A poesia pulou a infância
Amadureceu como uma mulher
Que só amadurece
Quando perde toda esperança
E cresceu
E como cresceu
Ocupou outras páginas
E tão logo
Abandonou minha casa
E agora
Me pergunto
Onde anda a minha filha
Pródiga,
Tão bela e oriundo
Que nem sei bem com o que parecia...

Tenho na casa
A velha, agora, afortunada
Amo-a
Como quem ama uma namorada
Mas não namoro
Nem sequer peço em casamento
É minha filha
E a adoro
É tudo o que tenho

As vezes,
Só as vezes,
Eu lembro da minha pródiga
E me pego em noites solitárias
Fico a imaginar
Como ela anda agora
Em que pé está sua estrada?
Mas tenho fé
E espero à surdina
Sei que um dia aquele pé
Me trará de volta, a minha poesia!

Nenhum comentário:

Postar um comentário