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A Profecia dos Seis Dias (O Desprocesso da Criação)

Certa noite,
Antes dos sonhos me visitarem,
Um anjo, ou alguém com asas,
Jogou uma luz intensa em meus olhos...
Tão intensa foi,
Que o que eu vi,
Relato abaixo...


I

E no primeiro dia,
Sumirão os dinheiros, as moedas,
As contas bancárias, os cheques,
Os extratos...
[Sim, os malditos extratos!
Os tíquetes de alimentação, os vales transportes,
os vales que não valem nada,
os cartões de créditos,
os débitos (ah... Os débitos!),
os números riscados em sua caderneta de poupança,
os talões, as contas,
e todo resto de número na face da terra...
Alguém, em uma bolsa de valores,
Vai gritar desesperadamente “Puta que pariu!”.
Outro,
Do outro lado do mundo,
Vai responder sem saber que estar respondendo
“Puta que pariu!”,
E a loucura vai, enfim, ter um rosto
Visível na cara de todo mundo...

II

No segundo dia,
Perderão as roupas...
As roupas, os cachecóis,
As calças jeans, os sapatos,
Os tênis, as sandálias,
As jaquetas, os ternos,
Os uniformes, as lingeries,
As calcinhas e as cuecas,
As meias, os tapas-sexo,
Aquela coisa englobada no sutiã da moça da capa de revista,
A gravata, o tecido – perfeitamente reciclável de um animal morto,
Enfim,
Perderão as vestes...
E o mundo voltará à nudez...
Alguns,
Incrédulos pessimistas,
Irão poupar Deus de todo essa árdua tarefa de tomar as coisas,
E vão começar a destruir tudo...

III

No terceiro dia,
Sumirão as televisões.
Sim, essas malditas caixinhas de fibra-ótica
Personalizada à nossa fantastica alienação...
Sumirão os televisores,
Os computadores, os celulares,
Os bluetooth’s, os GPS, os MP’s,
As máquinas de escavação,
Os aceleradores de partículas táquions,
As plataformas petrolíferas,
E até mesmo a chave de fenda que aquele mecânico
estava usando no momento em que aquele carro
enguiçou na estrada...
Sumirão
O aparelho de barbear,
Vibradores, modens,
E até a maquininha de escrever dos poetas...
Nessa loucura de sumir as coisas,
O velho sujeito desconhecido,
Dentro de um consultório odontológico,
Vai gritar com algodões nas gengivas:
“Puta que pariu!”.
Claro que o doutor não irá entender,
Mas vai concorda plenamente,
Pois, afinal,
Mesmo no juízo final,
O cliente sempre tem razão...

IV


No quarto dia
Sumirão os sofás.
Sim, vai-se embora todo conforto,
Somem sofás, mobílias,
Camas, poltronas, salas e jogos de jantares...
Airbags, cadeiras reclináveis,
Redes de balanços, tapetes (voadores ou não)
Colchões, travesseiros, cobertores,
Edredons, paninhos para cobrirem os rostos na sonequinha da tarde,
E até mesmo,
Os panos de enxugarem as louças...
As louças não somem,
Ficarão lá, sujas, tristes, largadas
E nós?
Nós não poderemos fazer nada!
Porque sumiu tudo,
Inclusive, nossa vontade de limpa-las.

V


No quinto dia,
O penúltimo dia,
Sumirão as casas...
Os tetos, os chãos,
As paredes, as portas,
Os quartos,
Até aquele sótão que você usava
secretamente para fazer suas coisas secretas...
De volta a rua,
De volta a nudez,
De volta ao desconforto,
O homem, ou mulher,
Pasmado com essa sucessão de coisas
Repentinamente tomadas de seus pertences,
Caoticamente, notará um bando de outro seres humanos
Sem casa, nus, e incomodados com alguma coisa...
Nisso,
vai ser a primeira vez,
Desde o início da humanidade,
Que o homem olhara para o outro homem
Sem saber o que diabos é ele...

VI

E assim,
No último dia,
O juízo final...
Desaparecerão as pedras...
Sim... As pedras!
E junto, vão-se embora as árvores,
Os animais, os mares,
As luas, os sóis,
As estrelas, os azuis,
Os vermelhos, os amarelos,
E todo resto de cor
Que nossa percepção ótica consegue captar...
De tudo o que irá sumir,
Vão sobrar nós,
Apenas nós...
E o trágico silêncio do desentendimento...
E nessa árdua solidão social,
Desnudamente travestidos de corpo,
Deus vai descer do céu
(ou alguém com uma barba até os pés e cabelos brancos),
Com uma sacola de algodão do tamanho do planeta Júpiter
E dizer, com um largo sorriso de vencedor no rosto:
“Viu, viu eu disse que o fim seria trágico!”
Sim,
O fim

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