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Relatório de Inverno

Havia uma tequila no bar da frente,
Mas sem jeito,
Ela resolveu no copo ali mesmo.
Fechou-se a cara,
Abriu-se o fígado,
E diante da falta de uma palavra,
Ela expressou-se em grito.

Os gritos são intraduzíveis
Em qualquer dialeto,
E no abrigo incomum,
Dessa tarde de inverno,
Aquele grito tinha apenas um significado.

Ninguém ouvia,
Com certeza,
Mas estava lá,
Lá dentro de sua cabeça,

E era alto,
Devia ter no mínimo,
114 mil espíritos ali se ajustando.
Mas,
Na certeza de que o silêncio era absoluto,
Ela permaneceu sorrindo e cantando.

Aquele outro cara,
Do canto a esquerda,
Persistia em uma variação,
Irregular de olhares sensuais.
Mas,
Como não conseguia manter-se em equilíbrio,
Abandonou o charme convidando-a para uma trepada.

A falta de pudor,
Ou moralidade dos fatos,
Não é apenas porque a ausência humana de sentido,
Sobrou-se em excesso aquele corpo vazio,

Mas também,
Porque entre a dispersão gratuita da lucidez,
E a abdicação concreta da sobriedade,
O medo,
Como misterioso reflexo da incompletude,
É ignorado.

Mas a tequila ainda estava no bar à frente,
E para cometer todos os pecados,
Sem medo,
Ela resolveu tudo,
Do seu próprio jeito...

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